Eu estava naqueles dias em que nada estava bom, mas também nada estava ruim. A cama era o aconchego para aquela preguiça toda de existir. As músicas eram nem melancólicas, nem alegres. O dia era nem lá e nem cá. E como toda mente sem nada pra fazer é uma oficina pro diabo, lá estava eu pensando em você. Na verdade relembrei da ultima vez que nos vimos. Já faziam seis meses de desencontros e todos não programados. É incrível perceber como a vida faz nossos caminhos, como antes a gente se encontrava sempre e depois dos cortes de sentimentos, ou pelo menos da tentativa de cortar, a gente se perdeu. Na verdade te vi um dia antes do reencontro. Vi as costas, mas preferi mudar o rumo e não pagar pra ver como seria o encontro de frente. E nada adiantou. No dia seguinte eu chegando correndo para o show, no pique para começar a dançar as músicas, até deixando minha amiga para trás, de repente quando viro o rosto ainda andando apressada para ver onde estava ela, eu vejo você. Ao mesmo tempo que em minha cabeça aconteceu tudo tão rápido, não tendo como fugir, retornando, dei-lhe um beijo tão rápido no rosto que acho que nem chegou a ter contato pele a pele. Aquele 'Oi, tudo bem?' de sempre, sem esperar resposta. Mas aconteceu devagar também. Quando virei e vi seu rosto, você como sempre com o cigarro na boca, pronto pra acende-lo, me viu e soltou um sorriso, ainda com o cigarro na boca, a cabeça meio baixa. E logo soltei em minha mente as minhas compreensões. Você já devia ter me visto antes. Aquele sorrisinho meia boca, tinha a impressão de cínico, de que na sua cabeça eu não iria retornar para lhe cumprimentar, de que você era demais para mim. Eu deveria ter feito tudo mais devagar, realmente saber se você estava bem. Ou eu também não precisava nada disso. As coisas aconteceram e pronto. Não houve culpados, não haviam julgamentos por minha parte e eu já não queria mais saber da sua parte. Como poderia eu fazer mais se ainda la no fundo eu queria muito mais que um tocar de bochechas? Ao mesmo tempo que você era superficial para mim não me tocando sentimentalmente como antes, você estava perdido internamente em mim, e eu mentia para mim dizendo que não queria mais te encontrar aqui dentro, depois de tanto tempo tentando te esconder. Chega. Parei de relembrar e fui em busca de alguma oficina qualquer que me colocasse longe dos pensamentos profundos. Longe de você. Hoje em dia eu conseguia parar de pensar apenas em um comando. Diferente dos longos dias a um tempo atrás, em que nem eu mandando eu parava de te imaginar. Pronto, pensei: já me basta por hoje, já rendeu um texto.