sábado, 31 de dezembro de 2011

Passagem sem fim

Não há fim. É só uma passagem que cronometramos para chegar a um começo do meio que não conseguimos terminar. As mudanças sempre virão. Não foi um fim que as possibilitaram. Foi você. Fui eu. Fomos nós. As lamúrias, as alegrias, os afagos, as paixões, estarão todas presentes independente desta passagem. Nós somos túneis de experimentações. Elas podem se esconder. Você pode fugir. Mas tudo estará em você. Não há contagem de tempo que as façam ter um fim. E agora? José? Maria? Eu? Você? VIVAMOS. Com todas as cargas energética que essa palavra possui. Na sua carne literal. No âmago. Não nas passagens, mas nos passando.

domingo, 27 de novembro de 2011

Denúncia

Os olhares nos denunciam.
Não há controle.
Quando menos se espera os olhos vão
Atrás do que querem ver, sem titubear.
E é no ato que vários olhares se cruzam se denunciando.
É o desejo manisfestando inconscientemente.
A esquiva, sempre percebida,
nós revela o ato falho.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Pacotinhos

Vive-se de pacotinhos de felicidade.
A cada experiência, um pacotinho,
mesmo que haja pacotes indesejáveis.

Vive-se de pacotinhos de amor.
Não há espera infinita por um grande pacote,
há vivências por inúmeros unidos pacotinhos.

Vive-se pela diversidade de pacotinhos.
Esquecendo o que foi o que é e o que será,
unindo pacotinhos e os vivenciando.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Tempo demais

Algumas coisas precisam de tempo,
e outras de tempo demais.
Voltar atrás não faz mais sentido,
mas seguir ausente também não faz.
Deixar de guardar amor é impossível,
guardá-lo dói mais.
Dar visão aos olhos incomoda,
não enxergar sufoca.
E assim a gente se leva tendo, não tendo,
sentindo, buscando não sentir o que a vida
nos coloca à prova, à centímetros de existência,
curta, direta e efêmera quando se quer uma vida inteira..

segunda-feira, 19 de setembro de 2011


Ser


Ser a antera do caminho.

Desperdiçar pólens a cada canto

Dos canarinhos, atraí-los

Em todo recanto.

Ser antera

Esfera

Fera

Era.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Amor é fogo

Página virada
logo rasgada,
será queimada.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Manhã rosa


Não sei se barriguda ou ipê,
mas era rosa a visão da manhã.
No inferno ao quadrado
dos carros e da seca,
era ela quem transformava
um dia de tristeza comedida
em calmaria cheia de proeza.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Amém

Agosto desgosto
se foi.
No posto
do gosto composto
que vem
Setembro,
todos dizem
Amém!

sábado, 13 de agosto de 2011

Afeto pelo vazio

Era possível ter afeto a algo incompleto?
Não conseguia mais formar o desenho
As linhas não se encontravam
Os gestos eram sombras
O sonho não era certo

Existia uma saudade
A presença de uma ausência
Não pelo desenho, não pela imagem
Era ausência de Amor
Era falta de coragem

Afeto pelo vazio

domingo, 7 de agosto de 2011

Oficina do diabo

Eu estava naqueles dias em que nada estava bom, mas também nada estava ruim. A cama era o aconchego para aquela preguiça toda de existir. As músicas eram nem melancólicas, nem alegres. O dia era nem lá e nem cá. E como toda mente sem nada pra fazer é uma oficina pro diabo, lá estava eu pensando em você. Na verdade relembrei da ultima vez que nos vimos. Já faziam seis meses de desencontros e todos não programados. É incrível perceber como a vida faz nossos caminhos, como antes a gente se encontrava sempre e depois dos cortes de sentimentos, ou pelo menos da tentativa de cortar, a gente se perdeu. Na verdade te vi um dia antes do reencontro. Vi as costas, mas preferi mudar o rumo e não pagar pra ver como seria o encontro de frente. E nada adiantou. No dia seguinte eu chegando correndo para o show, no pique para começar a dançar as músicas, até deixando minha amiga para trás, de repente quando viro o rosto ainda andando apressada para ver onde estava ela, eu vejo você. Ao mesmo tempo que em minha cabeça aconteceu tudo tão rápido, não tendo como fugir, retornando, dei-lhe um beijo tão rápido no rosto que acho que nem chegou a ter contato pele a pele. Aquele 'Oi, tudo bem?' de sempre, sem esperar resposta. Mas aconteceu devagar também. Quando virei e vi seu rosto, você como sempre com o cigarro na boca, pronto pra acende-lo, me viu e soltou um sorriso, ainda com o cigarro na boca, a cabeça meio baixa. E logo soltei em minha mente as minhas compreensões. Você já devia ter me visto antes. Aquele sorrisinho meia boca, tinha a impressão de cínico, de que na sua cabeça eu não iria retornar para lhe cumprimentar, de que você era demais para mim. Eu deveria ter feito tudo mais devagar, realmente saber se você estava bem. Ou eu também não precisava nada disso. As coisas aconteceram e pronto. Não houve culpados, não haviam julgamentos por minha parte e eu já não queria mais saber da sua parte. Como poderia eu fazer mais se ainda la no fundo eu queria muito mais que um tocar de bochechas? Ao mesmo tempo que você era superficial para mim não me tocando sentimentalmente como antes, você estava perdido internamente em mim, e eu mentia para mim dizendo que não queria mais te encontrar aqui dentro, depois de tanto tempo tentando te esconder. Chega. Parei de relembrar e fui em busca de alguma oficina qualquer que me colocasse longe dos pensamentos profundos. Longe de você. Hoje em dia eu conseguia parar de pensar apenas em um comando. Diferente dos longos dias a um tempo atrás, em que nem eu mandando eu parava de te imaginar. Pronto, pensei: já me basta por hoje, já rendeu um texto.

sábado, 6 de agosto de 2011

Cansaço

Já é hora de descansar os olhos
não olhar o vazio adentro
não se encharcar.
O corpo não se equilibra mais
o sangue está frio
tudo se tornou robótico.
É hora de relaxar, não pensar
respirar e somente pulsar
para seguir em frente
no que não se vê.
É hora de deitar
dormir
apagar.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Dia do amigo

Dia do amigo. Confesso que acordei lendo aqueles montes de recados em redes sociais e não me sensibilizei. Talvez fosse recalque, mas não. Os amigos que conto nos dedos que tenho são realmente amigos e eu faria qualquer coisa por eles, mesmo que eles não fizessem o mesmo por mim. Tenho um valor imenso pela amizade, acredite. E talvez seja por isso essa falta de sensibilidade em um dia que não deveria ser especificado para tal, afinal, amigo que é amigo se é todos os dias. Essa superficialidade de emoções me enoja. Seria defeito ser intensa e profunda demais nas coisas? Recalque. Aos amigos, as minhas emoções a flor da pele!

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Visita ao médico

Certo dia fui levar minha mãe ao médico. Especificando melhor ele era um cirurgião plastico já que o que estava em questão era a diminuição dos seios que minha mãe tão sonhava desde menina. Infelizmente coisas estéticas são levadas apenas como futilidades, sem levar em conta o psicológico do paciente, a interferência que causa em sua vida a não realização de uma mudança que tanto deseja. E por serem assim levadas as cirurgias estética são caras e nenhum plano de saúde as cobrem.E foi por isso a demora da realização do sonho de minha mãe.
Era a segunda visita dela ao médico, mas era a primeira que eu a acompanhava. Na visita anterior eles já haviam decidido o preço que era menor que as demais por algumas questões que não vem ao caso. No entanto, nesta visita que eu estava ele havia esquecido o desconto e falou em palavras marcadas "eu nunca faço esse preço ". Não me senti bem com a recepção e nem com a postura do médico. Para mim ele tomou a medicina como um mercado em que se lança preços, e não pelo trabalho, que ele nem se quer especificou, mas pelo tipo de pessoa que 'atende', talvez fosse uma mulher com aparência de rica ele lançasse outro valor ainda maior. Me parecia ele ser mais um daqueles alunos que fazem medicina pelo 'status' e pelo poder aquisitivo.
Não estou desmerecendo o valor que um médico deve ganhar. Sei dos riscos e das dificuldades que a profissão trás e que deveria ser mais valorizada pelos planos de saúde e estado. Se o médico da visita tivesse melhor explicado o preço especificando o trabalho, os materiais que usaria, o pagamento do hospital e de seus ajudantes, como enfermeiros e anestesistas, tivesse eu entendido e não o julgasse.
Medicina não é uma profissão pra se ganhar dinheiro, nem aparências. É preciso respeito, amor ao que se faz, vontade de ajudar ao próximo com o que se sabe sem querer em troca algo de um paciente, até porque ele está ali para receber ajuda e não para dar alguma coisa. O salário é apenas uma consequência, que sim deve ser justo, mas não é de responsabilidade de um paciente.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Pare

O que mais tenho pedido é que ele pare.
-Pare de bater, pare de me bater.
Mas ele não tem entendido.
Fica todo deprimido sem ter porquê.
Sem ajuda do outro para esquecer.

O que mais tenho pedido é que ele pare.
-Pare de pensar, de sonhar.
Mas ele não tem escutado.
Faz tudo errado, sem razão.
Coisas que não são sua função.

O que mais tenho pedido é que ele pare.
Pare Coração!

(05/02/2011)

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Os dois eu's

O Egito lhe parecia lindo. As pirâmides exuberantes, tão grandiosas que era difícil de acreditar que eram construídas pelo homem. De tão altas achava-se que as pontas dos dedos iríam alcançar os céus.


E lá estava ela, feliz, como se nunca estivera antes. E como não estar, sabendo que iria fazer uma apresentação ali, no jardim de uma das pirâmides. Cantaria como se fosse um pássaro de cativeiro diante da sua liberdade.


Entrou, se posicionou, se desposicionou, cantou e descantou. Não dava para destinguir rostos, era somente ela ali, como se todas as energias de todos concentrassem nela e ela abdusia tudo aquilo.


O tempo não foi cronometrado, como se não pudesse senti-lo, deduzi-lo. Como se nada fosse real.


Foi então que naquela magia toda desceu do palco e foi em direção a outro ambiente. Havia ali placas de que a entrada era proibida. Mas quem haveria de proibi-la? Ela queria cantar ali também, aquele lugar a chamou e no mesmo lugar também queria ela receber mais e mais energias.

Num processo de energização forte eis que dois braços a seguraram. E só quem poderia lhe proibir a segurou. Era ela mesma. Olhava estranhamente o seu próprio rosto, só que este que a segurava tinha um semblante calmo, de quem a ajudaria.


As visões começaram a se confundir, ora era o seu olhar, ora era o olhar de quem a segurava, e neste ultimo ela à via com um semblante assustador, não a reconhecia mais. Quem era ela agora? Quem a sustentava? Como desvinciliar daquela situação surreal?


Foi quando ela sendo segurada por ela mesma, viu diante daquele semblante calmo algo que a fez entrar em surto psicotico, era como um espírito, mas que não deu tempo de ver sua forma e face já que o olhar que estava era o seu mudou para o olhar do seu eu que à segurava. Só via o temor de se mesma e de repente uma luz forte que a cegava e um arrepio...


Era sonho. Tudo não passava de um sonho e agora estava fora dele. Aos tremores e suando frio, como se tudo aquilo fosse tão vivo quanto os sentimentos que apresentava naquele momento. O que terá sido tudo aquilo? Um sonho nunca antes se quer imaginado ou semelhante a qualquer outro. Nem teria pensado em coisas parecidas antes para vincular a ele. E era a tarde. Sonhos intensos não costumam vir à tarde.


Procurar perguntas e respostas? Associações? Era melhor não...só de lembra-lo o arrepio vinha a alma.







sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

[In]interrogáveis.

De frente ao espelho, muda, pergunto-me uma infinidade de interrogações, todas não interrogáveis. E no limiar do tempo ali parada, apenas faço força. Esforço-me, uso dos músculos faciais para que aquela água salobra de dentro dos olhos não caia. Mas é inevitável. Quando sinto, ela já escorreu e se uniu a boca trêmula, muda, com gosto do nada e do tudo ao mesmo tempo. Com a vontade de abrir-se com respostas ou soluções.
Quem sou eu? Queria que alguém me dissesse. Ou pelo menos sugerisse. Sou tantas, para tantos. Uns indiferentes outros tão próximos tão viventes. E eu ainda assim não sei o que sou dessa proximidade. Quem são vocês? O que querem de mim? São tantos vocês de vocês mesmos que eu me pergunto se um deles não é a minha própria imaginação. Vocês são o que eu fiz de vocês em mim, o que eu quereria perto de mim. Mas uns tem o dom de não me deixar fazer, ou fazer e se perder. Nós nos perdemos constantemente.
Nos encontraríamos novamente? Em um futuro próximo, talvez? Ninguém volta ao que era antes do que se perdeu. Tenho que acalentar o coração. Fazê-lo entender que a vida é do jeito que é. Sem entendimentos. Sem falhas. Sem acertos. Sem voltas. Sem idas.
Sem um eu.
Saio da posição inicial, quase que um insight profundo, me retiro do espelho como se aquele momento ficasse apenas dentro de mim e eu do lado de fora, me afastando de qualquer questionamento.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Brincando de fazer um livro com a Marcela nas madrugadas de insônia

...
Mas será que ele voltaria assim como era antes? Quando eu acordava nas raras vezes de repente ao seu lado e ele ainda dormindo rolava seus braços ao encontro do meu corpo, assim ainda sonambulo, desajeitado, mas com todo o amor fantasiado que eu sentia que ele entendia. São dois meses de desconhecimento e mais alguns de saudade doída, de desejo quase que incontrolável, de percepção das realidades. Diálogo, existe? Penso que somos infinitos monólogos, um como plateia para o outro. Achamos que dialogamos, que nos entendemos e no fundo nada e tudo é a mesma coisa. Sentimos um tudo para depois descobrir que foi nada. Um diálogo inexistente.

É deprimente notar descer uma lágrima a cada vez que fecho os meus olhos. Por favor, Anita, comporte-se, pare de chorar e prenda a respiração só para conseguir lavar o rosto, vamos lá: um, dois e estou cansada. Quando foi que tudo se tornou mais difícil? Todos os meus caminhos costumavam trilhar para os seus. E agora minha metade inteira chora de saudade. Gostava tanto do sol que dourava os nossos corpos na praia, dos sapatos levados nas mãos, essas lembranças que ficaram na minha memória e, certamente, dentro desse meu coração. Lembro-me, também, de quando você vinha me oferecendo o seu passado, e, em troca, oferecia-lhe o meu futuro. Edu, nós éramos o presente, um tempo infinito em um só, eterno. Tudo o que restou foi o vazio, o temporário, o efêmero. Não somos mais, fomos. Apesar de sabermos disso tudo.

Por que algumas dores duram tanto, por que alguns sentimentos demoram tanto a passar? Tudo o que consigo é reavivar essas esperanças perdidas e provocar lágrimas quentes e amargas contidas. Foi-se do belo ao detestável. Mas estou tentando superar e me divertir, não é isso que mandam a gente fazer? Não pegue assim na minha mão, Eduardo.

Eu queria roçar em seu corpo e tocar suas mãos para tentar sentir o que um dia senti, quando vi Anita pela primeira vez e fiquei espantado, não com beleza que nem era grandiosa, mas com sua pele macia e graciosa, como um pessego veludado pedindo por uma mordida suculenta. Era difícil, já não eram mais as mesmas sensações, mas eu não conseguia entender, decifrar qualquer sentimento. Os dois primeiros meses foram ruins. O álcool foi algumas das distrações além do sexo sem graça. Sem amor. Em que tocava e não sentia nada de surreal quando se sente quando amamos a pessoa ao lado. Era pura biologia, animal a procura de prazer carnal. O que aconteceu conosco Anita?
...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

É uma pena

Acontece que sempre sou a primeira a ver, a vivenciar.
E dói, como vai la no fundo e mesmo com dias e dias, afeta.
Sou uma afetada. Ontem foi assim.
Hoje já me encontrava com um casal na frente, outro do lado esquerdo e um do direito.
Confesso, faltava você.
Sentia no coração que aquela cadeira vazia era sua e que as lembranças não eram falsas ou em vão. Isso tudo mesmo sabendo que a razão estava ali pra dizer que não tinha que sentir falta, ou que não fazia parte de algo.
O mais estranho era depois de te ver com o passado, perbebia as coisas que lhe faltavam ou que perdia na minha ausência.
Eu tinha pena, queria você ali, vivenciando algo que não viveria longe de mim.
Mesmo com o coração ainda batendo, ou com a certeza de que não mais o teria.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Pamonharia

Cheguei. Havia acabado de tirar as sandálias e procurado como ninguém por um papel em branco e uma caneta, lembrando que tinha amassado a folha da caderneta do finado ano. Já havia arrancado a folha da mesma para enganar a mim de que aquela não era do finado, mas eu ainda não conseguia me enganar.
Voltemos ainda ao caminho do fim para depois eu chegar ao começo de tudo.
Como não consegui utilizar a folha amassada do finado, estava eu insandecida pelo papel em branco. Então fechei minha conta e fui embora fazendo um jogo de palavras com as frases que rondavam meus pensamentos. Infelizmente a cada pensar sentia que perdia alguns nos passados segundos.
_Ainda irão inventar um gravador de pensamentos, tenho fé.
E toda aquela aflição de escrever por conta do início disso tudo, solidão.
Um momento por favor, solidão é algo fúnebre demais, é profundo demais. Estava eu só, confesso, mas não quer dizer que eu viva mergulhada em solidões.
Na verdade o início foi quando escutei o ronco do meu estômago e senti o desejo de dias por uma pamonha. Estar sozinha era mais um mero detalhe que sempre ocorria nos meus dias fatigados.
Pois bem, levantei daquela quase cova que era meu sofá. Vesti-me apresentavel e saí. A insegurança era tamanha que fiz uma ligação, quem sabe aquele não seria o dia em que eu sairía sozinha comigo mesma. Nada feito, eu estava findada a mim.
Até então tudo bem, sair para jantar comigo não era e nem seria o pior dos meus encontros. Sentei em uma mesa mais reservada, adaptei minha bolsa e esperei pelo garçom.
O pior não foi ele chegar com dois cardápios e me perguntar se seriam duas pessoas. Confesso que o que fez supitar uma gota de incômodo foi dizer:
_Não, estou só mesmo.
No entanto, ficar sozinha nunca me incomodou, pelo contrário, eu sempre me fui uma ótima companhia, mas era algo mais além, mais fundo que eu não saberia explicar em palavras.
E quando ele se retirou já com meus pedidos e eu já de cotovelos na mesa, porque esse tal papo de etiqueta nunca foi o meu forte, prezo bem mais meu conforto e que por incrível que pareça, depois de uns minutos era isso, eu estava confortável, só, comigo, sem pensamentos.
Olhava para a avenida, sentindo aquele cheiro e ouvindo o som da garoa caindo no asfalto, as famílias chegando e para não faltar, um casal jovem dividindo um guarda-chuva. Mas eu estava muito bem ou já conseguia me enganar muito bem como uma atriz recente.
Não, não era cena. Eu estava bem. Sentia, mesmo que cansado e em frangalhos, que eu tinha coração, e agora, depois de um tempo paralisado, estagnado, ele batia, batia por mim, somente.
Agora estou aqui, já não mais com um papel em branco, mas cheio de palavras que tentam, se esforçam em expressar o que está dentro.
E o que me resta disso tudo é que coca-cola não combina com pamonha.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Vênus - Moska

"Não falo do amor romântico,
Aquelas paixões meladas de tristeza e sofrimento.
Relações de dependência e submissão, paixões tristes.
Algumas pessoas confundem isso com amor.
Chamam de amor esse querer escravo,
E pensam que o amor é alguma coisa
Que pode ser definida, explicada, entendida, julgada.
Pensam que o amor já estava pronto, formatado, inteiro,
Antes de ser experimentado.
Mas é exatamente o oposto, para mim, que o amor manifesta.
A virtude do amor é sua capacidade potencial de ser construído, inventado e modificado.
O amor está em movimento eterno, em velocidade infinita.
O amor é um móbile.
Como fotografá-lo?
Como percebê-lo?
Como se deixar sê-lo?
E como impedir que a imagem sedentária e cansada do amor não nos domine?
Minha resposta? O amor é o desconhecido.
Mesmo depois de uma vida inteira de amores,
O amor será sempre o desconhecido,
A força luminosa que ao mesmo tempo cega e nos dá uma nova visão.
A imagem que eu tenho do amor é a de um ser em mutação.
O amor quer ser interferido, quer ser violado,
Quer ser transformado a cada instante.

A vida do amor depende dessa interferência.
A morte do amor é quando, diante do seu labirinto,
Decidimos caminhar pela estrada reta.
Ele nos oferece seus oceanos de mares revoltos e profundos,
E nós preferimos o leito de um rio, com início, meio e fim.
Não, não podemos subestimar o amor e não podemos castrá-lo.

O amor não é orgânico.
Não é meu coração que sente o amor.
É a minha alma que o saboreia.
Não é no meu sangue que ele ferve.
O amor faz sua fogueira dionisíaca no meu espírito.
Sua força se mistura com a minha
E nossas pequenas fagulhas ecoam pelo céu
Como se fossem novas estrelas recém-nascidas.
O amor brilha.
Como uma aurora colorida e misteriosa,
Como um crepúsculo inundado de beleza e despedida,
O amor grita seu silêncio e nos dá sua música.
Nós dançamos sua felicidade em delírio
Porque somos o alimento preferido do amor,
Se estivermos também a devorá-lo.

O amor, eu não conheço.
E é exatamente por isso que o desejo e me jogo do seu abismo,
Me aventurando ao seu encontro.
A vida só existe quando o amor a navega.
Morrer de amor é a substância de que a vida é feita.
Ou melhor, só se vive no amor.
E a língua do amor é a língua que eu falo e escuto."

Moska

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Recaída

Que vontade desesperadora de vomitar mesmo de estômago vazio
De gritar esgoeladamente sem ninguém ouvir
De escrever tudo sem nenhuma inspiração
De esquecer mesmo com a memória vívida
Uma vontade sem vontade de nada
Seca crua e vazia