domingo, 7 de novembro de 2010

Preguiça de pessoas

Não é que eu seja fria ou sem sentimentos, entende? Eu não apenas tenho preguiça dos afazeres domésticos ou das obrigações. Também tenho preguiça de pessoas. E são todas as pessoas. Principalmente daquela Tia que adora te pegar pra conversar e contar a história da família desde um passado longínquo até os bafões atuais. Eu morro de preguiça dessa Tia. E minha mãe não entende. Ela diz que eu me acho e que não tenho humildade. Achar como? Se o que mais me anda atormentando é o fato de eu não me achar em lugar algum? É aí que eu tenho preguiça, também, da minha mãe. Mas isso não quer dizer que não a ame ou que eu não tenha sentimentos, consegue me entender? Eu saio como uma andarilha no meu belo setor num dia de domingo. Dia em que as pessoas estão em casa descansando e a existência de carros nas ruas é quase nula. Saio para ver se amenizo essa imagem errada que têm de mim em casa, essa imagem momentânea, e também para não sentir preguiça de mais pessoas dessa família. Levo meu livrinho de cabeceira e caminho na busca de um lugar bacana para ler. Chego numa praça, e ainda consigo encontrar pessoas entusiasmadas num belo domingo em que deveriam estar em casa. Eu realmente tenho preguiça de pessoas. Mas elas não me pertubam a uma certa distância. Eu paro num banco no meio da praça, fico ali uns 3 minutos e não me sinto confortável. As pessoas se encomodam com pessoas solitarias e um livro. E eu me encomodo com seus olhares quando tudo o que eu mais queria é estar invisível. Caminho mais um pouco pela praça e encontro uma sombra boa e escondida. Depois de um capítulo lido, aparecem dois homens. O cheiro do álcool se sente de longe. Espero um pouco para não acharem que eu sairia dali correndo porque serem mendigos. Ouço algumas conversas. "Quantas vezes você ja se casou fulano?". "Foram quinze vezes". "E aquela sua primeira esposa, morreu atropelada ou você que a matou?". Sim, o assunto ficou pesado. Logo me retirei. Não seria hoje e nem nunca que estaria livre de pessoas. Ainda não inventaram um lugar assim bacana, a não ser meu próprio quarto. Tenho preguiça de pessoas, entendeu? Não? É por isso que agora tenho preguiça de você amigo leitor. Mas não se assuste, não é uma preguiça constante.

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